• Facebook - White Circle
  • YouTube - White Circle
  • Twitter - Círculo Branco
Mais informações:  cienciaporai2017@gmail.com

Ouvir música clássica nos deixa mais inteligentes?

27/08/2018

Você já deve ter lido por aí que ouvir música clássica nos deixa mais inteligentes. Aliás, alguns sites oferecem até uma lista de músicas para melhorar o desempenho nos estudos. Imagine só como seria ótimo curtir um sonzinho no fone de ouvido e, de quebra, turbinar a inteligência!

 

 

Outro dado bastante intrigante que encontramos sobre isso em nossas buscas pela web é que crianças que estudam música ou ouvem música clássica, especialmente Mozart, são mais inteligentes. Mas será que essas composições têm mesmo um poder tão grande assim? A curiosidade não deixou nossa mente quieta, por isso fomos buscar respostas. Se você também está curioso, venha com a gente!

 

Sabe aqueles momentos em que você precisa de concentração máxima para estudar para uma prova superdifícil, mas até a textura da parede parece mais interessante que os livros? E celular, então? Checar Facebook, Instagram ou Twitter soa bem mais atrativo nessas horas, não é mesmo?

 

 

Em uma situação assim, será que a música clássica pode mesmo te ajudar a se concentrar? O professor da Universidade do Oeste Paulista (Unoeste) Felipe Viegas Rodrigues diz que para responder essa pergunta é preciso definir se a escuta é ativa ou passiva e até mesmo o que é concentração.

 

“Ouvir música ativamente requer atenção, pois esse mecanismo é necessário para selecionarmos a música em detrimento a outros estímulos existentes no ambiente, para acompanhar a melodia e harmonia da música e mesmo para entendermos diferentes seções da música, como estrofes e refrões. Se a música é cantada, envolve decodificação verbal e envolvimento explícito de significados e emoções. Se for em língua estrangeira conhecida, pode recrutar ainda mais processos para decodificação. Enfim, muita atenção voluntária é requerida para apreciação ativa de música e mesmo para apreciação passiva, como uma música de fundo num ambiente”, diz Rodrigues.

 

Ele lembra ainda que a atenção é uma função capaz de ser melhorada com treino, o que ajudaria na habilidade de se concentrar. “É provável que a música gere treino sobre mecanismos de atenção, permitindo aumento do foco ou do tempo de foco sobre estímulos. Há certo debate na literatura científica sobre a possibilidade de transferência cognitiva, isto é, o treino conseguido com a audição de música ser extrapolado para outros contextos, como uma sala de aula, mas é provável que isso possa acontecer”, afirma o professor.

 

 

Em nossa busca, uma outra expressão chamou nossa atenção: sons binaurais. O nome é estranho, mas você certamente já deve ter se deparado com esses sons por aí. A gente explica: são sons em que uma mesma frequência toca o tempo todo, como se fosse um zumbido. Dizem até que ouvir certas frequências podem ajudar a acalmar, a dormir ou até mesmo a nos concentrarmos em alguma tarefa do dia a dia. Será que isso é mesmo verdade ou tão de migué com a gente?

 

 

“Há poucos estudos realmente científicos que tenham demonstrado efeitos reais em relação a essas manipulações de ruídos. Um site famoso em promover esse tipo de conteúdo, talvez um dos pioneiros, é o I-doser. É provável que alguns sons possam ter efeitos sobre o humor, ansiedade e, então, produzir relaxamento. Mas músicas já demonstraram o mesmo efeito, selecionando-se andamentos e modos adequados para tal. Não seria muito mais agradável escutar música a ruídos?”, questiona Rodrigues.

 

Ouvir um tipo de música tem relação com diferentes aspectos da nossa vida, desde o ambiente em que a gente vive até o nosso humor naquele momento. Quando somos crianças, muitas vezes ouvimos as mesmas músicas que nossos pais ou pessoas que vivem conosco, e isso pode influenciar a maneira como nos comportamos. Existe até uma teoria que diz que se uma criança cresce ouvindo música clássica, principalmente as composições do famoso compositor Wolfgang Amadeus Mozart, ela seria mais inteligente. Isso é conhecido como efeito Mozart.

 

 

 Mas segundo Rodrigues não é bem assim. “É uma interpretação equivocada de experimentos da psicóloga americana Frances Rauscher e colaboradores na década de 90, que mostraram que a audição de músicas de Mozart produziria melhora temporária em habilidades espaciais (apenas por alguns minutos) e que não se sustentaria em dias consecutivos de teste, já que, utilizando as mesmas músicas e o mesmo teste, o efeito de melhora desaparece a partir da segunda exposição. Portanto, não só a ideia de ganho permanente é equivocada, mas também de que isso estaria relacionado a inteligência. Posteriormente, dada a chuva de relatos equivocados, outros autores investigaram mais profundamente a questão e entenderam que a melhora temporária está relacionada a efeitos sobre o humor do voluntário, que literalmente anima-se mais após a apreciação musical e melhora o desempenho no teste”.

 

É... infelizmente só ouvir as composições de Mozart não vai nos deixar mais espertos. Mas já que estamos falando de música, aproveitamos para levantar outra questão: será que saber tocar algum instrumento traz alguma vantagem intelectual?

 

Vamos por partes, começando com as crianças. Rodrigues explica que o pesquisador canadense E. Glenn Schellenberg publicou um estudo sobre esse assunto em 2004. Ele comparou o resultado de um teste de QI muito robusto, que utiliza a Escala de Inteligência de Wechsler, em três grupos de crianças. O primeiro teve aulas extracurriculares de música, seja de piano ou vocal, o segundo teve aulas de teatro e o terceiro não teve aulas, ou seja, era um grupo controle. “O desempenho após um ano de aulas – um total de 36 semanas, na verdade – foi pequeno, porém significativamente maior apenas no grupo que teve aulas de música”.

 

 

 

Pois bem, se deu resultado em crianças, em adultos também deve dar, certo? Os músicos, então, devem ser quase gênios! Só que não... “Esse efeito, porém, tende a desaparecer com a idade, como se em adultos outros fatores pudessem equilibrar eventuais diferenças e sobrepujar os efeitos provocados pelo ensino de música. Schellenberg não conseguiu encontrar os mesmos efeitos em adultos”.

 

 

OK, tocar um instrumento pode não deixar adultos mais inteligentes, porém estudantes de música têm outras vantagens. “Meus resultados do doutorado mostram que estudantes formais de música têm melhor desempenho de atenção em um teste de orientação encoberta da atenção visuoespacial, mas essa é somente uma função mental e não inteligência”, acrescenta o professor.

 

De qualquer maneira, ouvir a música que gostamos é algo muito agradável. E se você é daqueles que ficam viciados em determinadas canções, saiba que isso tem explicação científica. “Já se demonstrou que a música tem efeitos semelhantes à dependência química no nosso encéfalo, isto é, músicas indicadas pelo voluntário como extremamente recompensadoras e prazerosas foram capazes de promover os mesmos efeitos que substâncias como cocaína, maconha e outras”, finaliza Rodrigues.

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Destaque
Posts Recentes
Please reload

Arquivo